Desde o início da leitura, o que mais me chamou atenção foi a ambientação. A autora constrói um universo profundamente marcado por elementos da cultura japonesa, tanto no espiritual quanto no simbólico. É uma coisa linda de se ver em todos os detalhes: os rituais, as entidades, o próprio conceito de corrupção espiritual. É uma fantasia com elementos que flertam com a ideia de desequilíbrio, seja do mundo, das forças espirituais e da própria protagonista.

Yake é uma personagem que renasce fragmentada. Sua memória não retorna de forma linear ou confortável, mas em pedaços desconexos, sensações, imagens e sentimentos que apontam todos para a mesma direção: Narukami. Essa construção funciona muito bem, porque o leitor acompanha esse processo de reconstrução ao mesmo tempo que ela. Existe confusão, dor e insistência. Yake sabe que perdeu algo essencial, mesmo sem conseguir nomear tudo.
A narrativa alterna entre duas linhas temporais: o presente caótico, marcado por um mundo espiritual desalinhado, e o passado, há quinhentos anos, quando Yake e Narukami se conheceram. Esse contraste é um dos pontos mais fortes do livro. No passado, vemos o nascimento de um relacionamento delicado, intenso e, em muitos momentos, rebelde. Yake surge como uma figura mais impulsiva, enquanto Narukami carrega uma presença mais contida. A forma como essas duas personalidades se encontram e se afetam é construída com cuidado, o que torna a separação futura ainda mais dolorosa.
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O romance sáfico é tratado de forma MARAVILHOSA! Ele não existe apenas como um elemento representativo, mas como o eixo emocional da história. A relação entre Yake e Narukami é o que move o enredo, as escolhas e até as consequências que recaem sobre o mundo. É um amor que não é idealizado de forma vazia; ele carrega peso, erros e impactos reais.
Outro aspecto que merece destaque é como o caos externo reflete o caos interno da protagonista. O mundo espiritual apresentado está quebrado, desalinhado, com forças fora de lugar, linhas rompidas e uma sensação constante de instabilidade. Esse cenário dialoga diretamente com o estado emocional de Yake, que tenta organizar suas memórias da mesma forma que o mundo tenta se reorganizar.
A escrita de Luana Matallo R. é poética, envolvente e bastante imagética. Existe um cuidado grande com o ritmo do texto, que convida à leitura sem pressa. Em muitos momentos, a sensação é de estar atravessando uma névoa de lembranças, exatamente como a protagonista.
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A edição do livro é outro ponto que merece aplausos. Ecos de um Amor Eterno conta com diversas ilustrações ao longo da obra, essas artes não funcionam como uma extensão da narrativa! Elas ajudam a aprofundar a imersão nesse universo espiritual e tornam a experiência de leitura ainda mais envolvente.
Com cerca de 230 páginas, o livro tem um ritmo que flui muito bem. Mesmo sendo uma história densa em temas e emoções, a leitura avança de forma natural. É uma obra que convida o leitor a sentir, refletir e se perder um pouco nesse mundo fragmentado, assim como Yake.
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