Organizadores: Igor Girão
Editora: LC BooksCompre através deste link.
O apocalipse veio, mas o planeta resolveu seguir em frente. Pena que não chamou os humanos para seguirem junto.Para escapar do inverno nuclear, construiu-se Ouroboros: um submarino colossal, pensado como arca de esperança. Mas a promessa de salvação virou prisão — aço e silêncio moldando um mundo onde cada vida é medida, pesada e controlada.E se fosse você? Se sua família tivesse de provar, em relatórios e cotas, que merece respirar? Se sua diferença fosse transformada em sentença?Dentro de Ouroboros, a humanidade é colocada à prova — e não há espaço para imperfeições.O que nasceu para proteger acabou se tornando o verdugo. Uma serpente que devora a si mesma, revelando que o verdadeiro fim do mundo não é a destruição, mas a negação daquilo que nos torna humanos
Fala galera do Porão Literário, tudo certo? Hoje minha resenha é do livro Ouroboros, escrito por Igor Girão. O livro foi lançado pela editora LCBooks e a resenha foi escrita por Leonardo Santos.
Depois de um apocalipse nuclear, o planeta segue em frente, já a humanidade... não exatamente. Para escapar da extinção, constrói-se Ouroboros, um submarino colossal pensado como a última chance de sobrevivência. Um ambiente fechado, com recursos limitados, onde viver deixa de ser um direito e passa a ser algo que precisa ser constantemente justificado. Cada família é avaliada, cada corpo é medido, cada existência precisa provar sua utilidade.
Dentro de Ouroboros, tudo funciona a partir de cotas, relatórios e inspeções. O sistema não trabalha com afetos, apenas com números. Pessoas consideradas “não funcionais” são tratadas como falhas operacionais. A eliminação não vem como punição explícita, mas como procedimento. O discurso é técnico, quase neutro, e é justamente aí que o livro acerta em incomodar.
A narrativa ganha força quando apresenta personagens que se recusam a aceitar essa lógica. Sony é o melhor exemplo disso. Cega, consciente do espaço hostil que ocupa e constantemente pressionada a se adequar, ela não aceita o silêncio como regra. Sua existência já é um ato de confronto. O livro não tenta suavizar a violência do capacitismo estrutural; pelo contrário, expõe como sistemas que se dizem racionais usam a eficiência como desculpa para excluir.
Outros personagens, como Jonas, ajudam a ampliar esse debate. A ideia de continuar vivendo não está ligada ao presente, mas à esperança de que alguém, no futuro, possa ter uma chance melhor. Essa tensão entre sobrevivência imediata e futuro possível atravessa toda a narrativa e reforça o peso das escolhas feitas dentro do submarino.
A escrita de Igor Girão é direta e visual, muito próxima de uma linguagem cinematográfica. Ele não se perde em excessos e sabe quando deixar o sistema falar por si. A crítica ao capacitismo não surge como discurso isolado, mas como parte orgânica do mundo construído. Ouroboros funciona como metáfora de sociedades que escolhem quem merece existir com base em produtividade e adequação.
Sobre o autor, Igor Girão é escritor brasileiro e também autor de Além do Véu. Sua obra transita entre ficção científica, distopia e drama existencial, sempre interessada em discutir estruturas de poder e futuros possíveis. Em Ouroboros, essa preocupação aparece de forma muito clara, com a dignidade humana ocupando o centro da narrativa. Imaginar futuros, aqui, é também uma forma de resistência.
Ouroboros não fala apenas sobre o fim do mundo, mas sobre o que sobra da humanidade quando empatia vira custo e diferença vira problema. É uma leitura que provoca, questiona e permanece com o leitor depois da última página.




















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