Talvez dissessem, com sua graça peculiar, que nossos veículos de vivos são diversos: algumas vezes estão no mundo que conhecemos; outras, em mundos que não conhecemos, mas suspeitamos de algo ou carregamos uma certa familiaridade, não entendemos nem mesmo curtimos o mundo dos sonhos ou aquele antes de renascermos transmutados em gente de novo, ou talvez elementais, anjos iluminados, fogo, pássaro, nuvem ou poeira. De tudo, nunca renascemos no passado, apenas voltamos lá. Renascemos no futuro, embora ainda não consigamos lidar com o tempo e menos ainda com a morte..
Henrique consegue transitar por temáticas que dialogam com milhões de brasileiros, usando uma linguagem poética para colocar seus personagens em cenários que, à primeira vista, parecem comuns, mas escondem camadas profundas. O autor explora o que ele chama de "fendas": aquele espaço entre o real, o sonho e o social.
Em "Os Amantes", por exemplo, somos levados por uma narrativa super onírica com os personagens Fogo e Amara. O autor traz essa confusão e abstração do mundo dos sonhos para o texto de uma forma magnífica, mostrando que, embora a gente não saiba lidar bem com o tempo ou a morte, existe uma familiaridade mística ali.
Mas o que mais brilha para mim, além desse lado abstrato, são os contos de impacto social. Henrique mergulha fundo em questões de injustiça e contraste, como em "A Transferência", onde vemos o embate entre o mundo de um executivo ambicioso e a realidade de um cobrador de ônibus. Outro ponto fortíssimo são os relatos sobre ciclos de abuso e violência doméstica, como no caso da personagem Alzira, que traz uma carga emocional que ficou reverberando em mim por muito tempo.
O autor ainda consegue ser extremamente atual ao falar da desumanização frente às inteligências artificiais e ao resgatar elementos de regionalismo e memórias de infância. É um mix de realismo com um tom surrealista que dá muito certo e amplia demais a construção de mundo que ele propõe.
Minha experiência com essa obra não poderia ter sido melhor. Henrique Alves se apoia em questões extremamente atuais (do consumismo à nossa noção de organização social) e nos faz questionar: como estamos vivendo em coletividade?
Os pontos que esse livro levanta são tantos que eu poderia passar o dia falando, mas espero que esse gostinho seja o suficiente para você correr atrás e conhecer o trabalho do Henrique. A edição está muito bacana e os contos, apesar de curtos, te envolvem de um jeito que exige uma releitura para absorver cada detalhe.
Vou deixar o link de compra aqui embaixo para vocês, deem uma olhada no site da editora e aproveitem essa leitura!




















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