24 de fevereiro de 2026

RESENHA: VÁ, CHERIE



Organizadores:  Izzy Gomy 
Editora: Labrador
Páginas: 114
Ano de publicação: 2025
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No final do século XIX, o cervejeiro Léger e sua família franco-argelina chegam a Curitiba, seduzidos pela promessa de uma vida próspera no campo. Ao se estabelecerem na colônia do Bacachery, porém, a realidade se revela o contrário: a terra é árida, e Léger mal dá conta de sustentar a esposa e os oito filhos como garçom da Casa do Burro Brabo. Em um golpe de sorte, e com a ajuda de um cliente misterioso, o cervejeiro consegue comprar uma vaca leiteira chamada Chérie, cuja abundância de leite o leva a abrir uma queijaria, patrocinada por uma baronesa. O enorme sucesso tira a família da miséria, mas algo estranho começa a acontecer: os consumidores dos queijos passam a compartilhar pesadelos premonitórios, que nos fazem pensar sobre a humanidade — ou a falta dela..


Fala galera do Porão Literário, tudo certo? Hoje minha resenha é do livro Vá, Chérie!, escrito por Izzy Gomy. O livro foi publicado pela editora Labrador  e a resenha foi escrita por Leonardo Santos.


No final do século XIX, acompanhamos Léger, um cervejeiro franco-argelino que decide atravessar o oceano com a esposa Catarina e os filhos em busca de uma vida melhor no Brasil. A promessa de prosperidade no campo soa irresistível, especialmente para alguém que já viveu deslocamentos anteriores da Alsácia-Lorena para a Argélia, fugindo de tensões políticas e disputas territoriais.

O destino é o Paraná. Primeiro Paranaguá, depois Curitiba, mais especificamente a colônia do Bacachery. O que Léger encontra, no entanto, está longe do sonho vendido aos imigrantes europeus. A terra é árida, o dinheiro é escasso e sustentar uma família numerosa se torna um desafio diário. Ele passa de cervejeiro a garçom na Casa do Burro Brabo, tentando manter de pé aquilo que restou do projeto de prosperidade.


Um dos pontos que mais me chamou atenção é o cuidado histórico que Izzy Gomy imprime na narrativa. Não é apenas um romance ambientado no século XIX; é um mergulho detalhado na Curitiba de antigamente. Há menções à fundação da primeira escola primária mista na colônia argelina em 1874, referências à organização religiosa da época, à presença de diferentes nacionalidades dividindo os mesmos espaços, mesmo falando línguas distintas.

Esses detalhes aparecem como uma parte viva da história. Em determinado momento, vemos como as famílias católicas se reuniam, como a educação começava a se estruturar nas colônias, como figuras históricas reais atravessavam aquele cenário. O posfácio ainda aprofunda essa conexão ao trazer o barão do Serro Azul, reforçando que a ficção aqui caminha lado a lado com personagens que fizeram parte da história do Paraná.

Mas se por um lado temos essa base histórica sólida, por outro o autor brinca com um elemento que desloca completamente a narrativa: o realismo fantástico.

Em um golpe de sorte, Léger consegue comprar uma vaca leiteira chamada Chérie. A abundância de leite permite que ele abra uma queijaria, patrocinada por uma baronesa, e o negócio prospera rapidamente. A família sai da miséria e a ascensão parece definitiva.

Até que algo começa a acontecer.


Os consumidores dos queijos passam a compartilhar pesadelos premonitórios. Pessoas diferentes sonham as mesmas coisas. O alimento que simboliza sustento e vitória passa a carregar um peso estranho, quase inquietante. E é nesse ponto que o livro cresce ainda mais.

Izzy Gomy utiliza o fantástico não como espetáculo, mas como ferramenta de reflexão. A imigração no Brasil do século XIX foi marcada por promessas grandiosas e realidades duras. O “milagre” econômico da família de Léger carrega uma ambiguidade que nos faz questionar até onde vai a busca por prosperidade e o que pode ser sacrificado nesse processo.

A escrita é fluida, detalhista e muito consciente do espaço histórico que ocupa. Para quem gosta de romances que mesclam fatos reais com ficção de alto nível, especialmente ambientados no Brasil do século XIX, essa leitura é um prato cheio. Para quem tem interesse na história de Curitiba, a experiência é ainda mais rica.

Vá, Chérie! é aquele tipo de livro que começa como um drama histórico sobre imigração e termina te deixando inquieto, refletindo sobre as escolhas que constroem  (e às vezes assombram) uma comunidade inteira. Fica a indicação. 





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Leonardo Santos



Olá leitories! Meu nome é Leonardo Santos, tenho 28 anos, sou de São Paulo mas atualmente estou em Guarulhos cursando Letras! Minha paixão pela leitura começou desde muito cedo, e é um prazer compartilhar minhas leituras e experiência com vocês!

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