Organizadores: Dennis Penna Carneiro
Editora: IndependenteAno de publicação: 2016
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Na pequena cidade de Giges, uma erva daninha cresce, não das que costumeiramente vemos, mas sim da pior espécie: a erva daninha das ideias.Éthos, o bibliotecário da cidade, vê-se obrigado a aventurar-se nos meandros políticos para tentar salvar sua tão amada biblioteca.O que ele não espera é que seus adversários usariam o natural e o sobrenatural para manterem-se no poder.A paz da cidade está ameaçada. Até que ponto somos bons? Agiríamos da mesma forma caso soubéssemos que não haveria punição? Os cidadãos gigenses estão prestes a descobrir as respostas e, talvez, possam não gostar do resultado.
Fala galera do Porão Literário, tudo certo? Hoje minha resenha é do livro A cidade de Giges, do Dennis Penna Carneiro.
A história se passa em uma cidade pequena, quase isolada, que foi construída ao redor de uma igreja e que carrega consigo uma visão muito rígida sobre o que é conhecimento. Em Giges, existe uma espécie de controle silencioso sobre aquilo que pode ou não ser aprendido, e é nesse cenário que acompanhamos Éthos, o bibliotecário responsável por preservar um espaço que, para muitos, sequer deveria existir. A biblioteca guarda livros que vão além do conhecimento considerado “útil”, e justamente por isso passa a ser vista como uma ameaça.
Quando um episódio aparentemente simples envolvendo um livro de filosofia provoca desconforto na população, esse equilíbrio frágil começa a ruir. Éthos decide então se posicionar de forma mais ativa e entra no campo político ao lado de Empírikos, um ex-professor que agora vive à margem da sociedade. Juntos, eles tentam apresentar uma alternativa ao único partido vigente na cidade, propondo uma abertura maior para o pensamento e para outras formas de conhecimento.
A partir daí, o que se constrói é um embate direto entre duas formas de enxergar o mundo. De um lado, uma estrutura sustentada por dogmas e pela manutenção do poder. Do outro, uma tentativa de ampliar horizontes, mesmo que isso custe caro. Conforme a narrativa avança, a tensão cresce de forma gradual, mas muito consistente. O que começa como um conflito ideológico vai ganhando contornos mais extremos, até chegar em um ponto em que a própria ideia de ordem na cidade se desfaz.
Uma das coisas que mais me chamou atenção aqui foi como o autor trabalha o fanatismo. Não é algo tratado de forma superficial. Existe um cuidado em mostrar como esse tipo de pensamento vai sendo construído e, principalmente, como ele se sustenta dentro de uma comunidade. A sensação que fica é de que não se trata apenas de indivíduos isolados, mas de um sistema que se retroalimenta o tempo todo.
O uso do realismo fantástico também contribui bastante para essa construção. Não é um elemento que aparece de forma gratuita, ele está ali para intensificar essa atmosfera de estranhamento e, ao mesmo tempo, dialogar com o que está sendo discutido. A presença do narrador observador, com uma personalidade bem marcada, ajuda a dar ainda mais identidade para o texto e cria uma camada interessante na forma como a história é contada.
Os personagens, por sua vez, funcionam quase como representações de ideias. Em alguns momentos, eles assumem um caráter mais simbólico, mas sem perder a conexão com a realidade que o livro propõe. Éthos, por exemplo, carrega esse peso de ser alguém que acredita no conhecimento em um lugar que rejeita isso. Já Empírikos traz uma dimensão interessante sobre como a figura do educador pode ser deslocada e desvalorizada dentro de certos contextos.
Outro ponto que me pegou bastante foi a progressão da violência. No início, Giges é apresentada como uma cidade pacata, onde praticamente não existem registros de conflitos mais graves. Só que, conforme as ideias começam a se chocar, essa realidade vai sendo desmontada. O livro cresce muito nesse aspecto, mostrando como discursos podem rapidamente se transformar em ações e como isso afeta diretamente a estrutura de uma sociedade.
É uma leitura rápida, com pouco mais de cento e poucas páginas, mas que consegue trabalhar temas complexos sem se perder. Existe uma objetividade na escrita que ajuda muito no ritmo, mas sem abrir mão de provocar reflexão. Em vários momentos, o texto faz a gente pensar sobre a forma como lidamos com o conhecimento, com a educação e com aquilo que escolhemos acreditar.


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