Organizadores: André Alvez
Editora: MKT Produções Ano de publicação: 2026
Compre através desse link
Entrar na obra de André Alvez é navegar do cotidiano à magia em um instante. É descobrir mundos paralelos, âmbitos secretos que sua percepção de narrador nos desvela como algo natural. É adentrar a esse mar escuro sem saber ao certo o que vai encontrar. Tornamo-nos cúmplices de suas palavras desnudando os mistérios, construindo imagens que se sucedem, levando-nos a outro tempo e espaço. Entretanto, o que mais surpreende nesse universo surreal é reconhecer que o humano é o núcleo do fantástico experimentando novas e impossíveis formas de existir.
Fala galera do Porão Literário, tudo certo? Hoje minha resenha é do livro Flores Azuis Não Vão Para o Céu, publicado pela MKT Produções. O livro é de autoria de André Alvez e a resenha foi escrita por Leonardo Santos.
A história acompanha Calisto Azuag, um homem marcado por uma vida atravessada por perdas, traumas e relações familiares profundamente conturbadas. Isolado em um cenário distante da cidade, ele decide passar seus últimos dias revisitando o próprio passado, escrevendo tudo aquilo que construiu quem ele se tornou.
Ao longo dessa reconstrução, somos levados por uma narrativa fragmentada, que alterna entre presente e passado, revelando uma infância marcada por violência, abandono e episódios que moldaram sua visão de mundo. A morte da mãe ainda na infância, a relação ambígua com o avô e as dúvidas sobre sua própria origem são alguns dos pontos que estruturam essa trajetória. Conforme as memórias avançam, o livro expõe uma rede familiar densa, cheia de segredos, abusos e relações atravessadas por poder, dinheiro e silêncios.
Enquanto escreve e relembra, Calisto tenta entender até que ponto suas ações são consequência do ambiente em que cresceu ou resultado de escolhas conscientes. No presente, diante da decisão de colocar um fim na própria vida, ele encara não só o peso do passado, mas também a ausência de qualquer possibilidade de redenção.
Minha experiência com Flores Azuis Não Vão Para o Céu foi bastante marcada pela forma como o André Alvez constrói essa narrativa introspectiva. O livro tem um tom confessional muito forte, quase como se o protagonista estivesse organizando seus pensamentos enquanto escreve, o que deixa tudo mais direto e, ao mesmo tempo, mais desconfortável. A estrutura fragmentada funciona bem dentro dessa proposta, porque acompanha o próprio fluxo de memória do Calisto, que não é linear e nem tenta ser.
Outro ponto que me chamou atenção foi a construção dos personagens, principalmente dentro do núcleo familiar. Existe uma complexidade nas relações que vai sendo revelada aos poucos, e isso mantém o interesse mesmo quando a história entra em momentos mais contemplativos. O autor também trabalha temas pesados com bastante firmeza, sem suavizar situações ou tentar tornar os personagens mais aceitáveis para o leitor. Isso pode tornar a leitura mais densa, mas também dá consistência para a proposta do livro.
A escrita é simples, mas carrega uma carga emocional constante. Em vários momentos, o texto assume um tom mais reflexivo, especialmente quando o protagonista começa a confrontar suas próprias ações e a forma como lidou com as pessoas ao longo da vida. Além disso, o uso recorrente das flores azuis como elemento simbólico ajuda a amarrar diferentes momentos da narrativa, sempre associadas a lembranças importantes e acontecimentos marcantes.
No geral, é um livro que se apoia muito mais na construção psicológica do personagem do que em grandes acontecimentos. Funciona melhor para quem gosta de narrativas mais introspectivas, focadas em memória, culpa e relações humanas. Não é uma leitura leve, mas é uma história que se sustenta pela consistência da proposta e pela forma como o autor conduz esse mergulho na mente do protagonista.



.jpeg)



















.png)
.png)

