A literatura infantojuvenil se reinventa. E poucos nomes contribuem mais para isso do que Roger Mello. Em sua nova parceria com Felipe Cavalcante – dueto que deu origem ao premiadíssimo Clarice –, Roger encanta pelo uso exuberante de metáforas, projeto gráfico único, construções poéticas e uma narrativa que, como um submarino, corta o azul-cobalto do imaginário.U-507 é mais do que um livro; é uma experiência sensorial que se desdobra em cada verso e ilustração. Ele nos leva a acompanhar, através do olhar de uma pequena garota, a narração ficcional de um dos episódios mais enigmáticos da história brasileira: o bombardeio de navios durante a Segunda Guerra Mundial, ocorrido na costa de Sergipe. Essa aventura histórica é contada com a leveza e o humor que sustentam a sobrevivência em meio às inseguranças e aos medos de um mundo conturbado.Ganhador do Prêmio Hans Christian Andersen, considerado o “Nobel” da literatura infantojuvenil, Roger constrói sua narrativa como se desenhasse um labirinto aquático com palavras. Cada página revela novos segredos e convida o leitor a explorar os limites entre a verdade e a fantasia.
Fala galera do Porão Literário, tudo certo? Hoje minha resenha é do livro U-507. O livro é de autoria de Roger Mello, com ilustrações de Felipe Cavalcante e foi publicada pela editora Global.
U-507 parte de um episódio real da história brasileira para construir uma narrativa que mistura memória, imaginação e percepção. A gente acompanha os acontecimentos a partir do olhar de uma criança, filha de uma mulher viúva, vivendo em uma cidade do litoral nordestino durante a Segunda Guerra Mundial. É nesse cenário que surgem os relatos sobre os ataques de um submarino alemão na costa brasileira, algo que, para os adultos, carrega um peso histórico claro, mas que para a criança aparece de forma fragmentada, quase como um mistério.
O livro não se preocupa em recontar esse episódio de forma direta ou didática. Pelo contrário, ele trabalha com lacunas, com imagens e com uma construção que depende muito mais da sensibilidade do leitor. A guerra está ali, mas nunca é explicada por completo. Ela se manifesta nas ausências, nos medos e na forma como os adultos se comportam, sempre filtrada pelo olhar da menina.
O que mais me chamou atenção foi como o Roger Mello conduz essa narrativa sem perder o equilíbrio entre o histórico e o imaginativo. Existem elementos que flertam com o fantástico, que ampliam a experiência de leitura, mas sem tirar o peso do que está sendo contado. Isso cria uma sensação constante de deslocamento, como se a história estivesse sempre entre dois planos.
As ilustrações do Felipe Cavalcante são fundamentais nesse processo. Elas não funcionam apenas como complemento, mas como parte da narrativa. Em vários momentos, é através delas que a gente consegue entender melhor o clima da história, principalmente quando o texto opta por não explicar tudo. Existe uma preocupação clara em fazer com que o livro funcione também como objeto visual.
Outro ponto interessante é como o livro trabalha a ideia de memória coletiva. Esse não é um episódio tão presente no imaginário popular, e a forma como ele é abordado aqui faz com que o leitor se aproxime de algo que muitas vezes passa despercebido. Não é um resgate histórico tradicional, mas uma forma de olhar para esse passado através de outra perspectiva.
Assim como em Clarice, o autor aposta em uma escrita que não entrega respostas fáceis. É uma leitura que pede atenção, que exige que o leitor participe mais ativamente, ligando os pontos e interpretando o que está nas entrelinhas. Isso pode afastar quem busca uma narrativa mais direta, mas funciona muito bem dentro da proposta do livro.




















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