"Desde o fim da escravidão legalizada, o Brasil enfrenta o crime do regime análogo à escravidão, onde trabalhadores são explorados ao máximo. Essa escravidão contemporânea aflige milhares de brasileiros e estrangeiros em fazendas, casas de família e empresas privadas. O Jagunço é uma obra ficcional inspirada em relatos reais de pessoas resgatadas desse tipo de prática desumana. Acompanhando Isaque, um trabalhador rural aliciado por seu algoz Natan, veremos a realidade de uma fazenda pertencente a um latifundiário sem escrúpulos. Este livro é um retrato doloroso das chagas que a escravidão deixou no solo brasileiro."
Fala galera do Porão Literário, tudo certo? Hoje minha resenha é do livro O Caos e o Eu, publicado pela Ipê das Letras e escrito por Parraz. A resenha foi escrita por Leonardo Santos.
Quem somos? Existe uma identidade capaz de definir completamente uma pessoa ou estamos em constante transformação? É a partir desses questionamentos que Parraz constrói O Caos e o Eu, uma coletânea de poemas que utiliza a filosofia como ponto de partida para refletir sobre aquilo que existe de mais íntimo no ser humano. Ao longo da obra, acompanhamos textos que discutem o tempo, o amor, o desejo, a memória, a esperança, a espiritualidade, o trabalho e, principalmente, a dificuldade de compreender quem realmente somos.
Para o autor, o "eu" nunca é uma estrutura pronta. Ele muda conforme vivemos, conforme nossas experiências nos atravessam e conforme o tempo passa. É justamente por isso que o caos se torna uma presença constante na obra. Não como algo necessariamente negativo, mas como consequência natural de uma existência feita de mudanças, dúvidas e contradições. Entre poemas mais curtos e outros bastante extensos, Parraz constrói uma leitura que alterna momentos de contemplação com reflexões profundas sobre aquilo que significa existir.
O que mais gostei em O Caos e o Eu foi justamente a forma como o autor aproxima a filosofia da poesia! Mesmo discutindo temas bastante complexos, os poemas conseguem transmitir suas ideias de maneira clara, permitindo que possamos encontrar interpretações próprias conforme avançamos pelas página, e eu amei esse aspecto dos poemas.
Outro aspecto que me agradou bastante foi a diversidade dos textos, pois existem poemas bastante existenciais, como "Eu" e "Identidade", que exploram a instabilidade da nossa própria percepção, enquanto outros voltam seu olhar para situações muito concretas do cotidiano. "Bar", por exemplo, foi um dos poemas que mais me marcou! A maneira como Parraz observa trabalhadores encontrando naquele pequeno espaço um breve respiro depois da rotina pesada acaba transformando uma cena comum em uma reflexão sobre liberdade, cansaço e humanidade.
Também gostei da forma como referências religiosas, filosóficas e sociais aparecem ao longo da obra. Em "Adão, Eva e a serpente", por exemplo, o autor revisita uma narrativa conhecida para propor uma interpretação bastante interessante sobre razão, paixão e desejo como partes inseparáveis da identidade humana. Já poemas como "A Fonte" e "Passos" trabalham esperança e transformação sem recorrer a respostas prontas, deixando espaço para que o leitor construa suas próprias conclusões.
A escrita de Parraz também merece destaque. Existe um cuidado evidente na escolha das palavras e no ritmo dos poemas — mesmo quando desenvolve textos mais longos, a leitura permanece fluida e faz com que as reflexões surjam naturalmente. Muitos poemas convidam a uma segunda leitura justamente porque novos significados aparecem conforme nossa própria experiência de vida também muda.
O Caos e o Eu é uma leitura voltada para quem gosta de poesia reflexiva e de livros que levantam mais perguntas do que oferecem respostas. Parraz constrói uma obra que dialoga diretamente com as inquietações humanas e mostra que talvez nunca exista uma definição definitiva para aquilo que somos... e talvez seja justamente nessa instabilidade que reside a parte mais interessante da nossa existência. Leiam, vale super a pena.


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