"O Filho da outra conta a história de um menino que aos nove anos de idade fica sabendo que sua mãe é prostituta. Menino que carrega os sonhos em ser jogador de futebol rico e famoso para se livrar da pobreza e olhares preconceituosos. Em uma brincadeira do destino tudo muda rapidamente restando apenas aceitar o acaso da vida. Filhos estão preparados para ver a mãe sofrendo? Muito mais que uma história de futebol, é um livro sobre o amor de mãe e filho."
Fala galera do Porão Literário, tudo certo? Hoje minha resenha é do livro O Filho da Outra, publicado pela Folio Digital e escrito por Paulo Azevedo. A resenha foi escrita por Leonardo Santos.
Aos nove anos de idade, um menino recebe da própria mãe uma revelação que muda completamente sua forma de enxergar o mundo: ela é prostituta. Ainda sem compreender exatamente o significado daquela profissão, ele apenas a abraça, porque tudo o que conhece sobre ela é o amor incondicional que recebe todos os dias. Conforme cresce, passa a entender o peso do preconceito que cerca sua família e percebe que, para muitas pessoas, a profissão de sua mãe vale mais do que a mulher extraordinária que ela é.
Vivendo em uma comunidade da Baixada Fluminense, ele encontra no futebol um sonho compartilhado por milhares de crianças brasileiras: tornar-se jogador profissional, conquistar estabilidade financeira e oferecer uma vida melhor para a mãe. Entre campeonatos improvisados em campinhos de terra, amizades que atravessam os anos, testes em grandes clubes e as dificuldades impostas pela realidade, sua trajetória é marcada por escolhas difíceis, perdas, amadurecimento e pelo desejo de nunca decepcionar a única pessoa que sempre acreditou nele.
Desde as primeiras páginas fica claro que Paulo Azevedo não escreveu um livro para falar apenas sobre futebol. O esporte está presente durante toda a narrativa e ocupa um espaço importante na construção da infância e da adolescência do protagonista, mas ele nunca rouba a cena daquilo que realmente move a história: a relação entre mãe e filho.
A maior qualidade do romance está justamente na forma como constrói essa relação. Gigi uma mãe extremamente presente, carinhosa e dedicada, que faz o possível para proteger o filho de um mundo que insiste em julgá-la antes mesmo de conhecê-la. O livro não tenta transformar sua realidade em espetáculo e também não procura justificar suas escolhas; apenas apresenta uma mulher que encontrou naquele trabalho uma forma de sobreviver e criar o filho com dignidade.
Outro aspecto que gostei bastante foi a voz do protagonista. Como toda a história é narrada por ele, acompanhamos seu crescimento de maneira muito próxima. Primeiro vemos uma criança que não entende completamente o mundo ao seu redor. Depois, um adolescente que começa a enfrentar preconceitos, descobrir novas responsabilidades e perceber que nem sempre talento e esforço são suficientes para mudar uma vida. Essa evolução acontece de forma bastante orgânica e faz com que seja fácil criar identificação com o personagem.
As passagens envolvendo o futebol também funcionam muito bem. Paulo Azevedo demonstra conhecer esse universo e consegue transmitir toda a emoção das peladas de bairro, dos campeonatos entre comunidades e da pressão enfrentada por jovens que enxergam no esporte a única oportunidade de mudar de vida. Há capítulos inteiros dedicados aos jogos e, em momento algum, tive a sensação de estar lendo apenas descrições de partidas. O futebol serve para fortalecer amizades, criar rivalidades, revelar diferenças sociais e mostrar como aquele sonho coletivo também pode ser extremamente cruel.
Também gostei da maneira como o autor aborda questões sociais ao longo da narrativa. Preconceito, pobreza, violência, racismo e desigualdade aparecem naturalmente porque fazem parte da realidade daqueles personagens e esses debates surgem a partir das experiências vividas pelo protagonista, tornando tudo muito mais honesto.
Enfim, O Filho da Outra é uma leitura que surpreende justamente por não seguir o caminho mais óbvio. Apesar de partir de uma premissa bastante forte, Paulo Azevedo escolhe construir uma história sensível, humana e repleta de personagens cativantes. No fim, fica a sensação de que o futebol foi apenas o cenário escolhido para contar algo muito maior: o amor incondicional entre uma mãe e um filho, capaz de resistir ao preconceito, às dificuldades e às injustiças que a vida coloca no caminho.


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