16 de julho de 2026

RESENHA: TEAR - MÚLTIPLAS FORMAS DE EXISTIR



Organizadores:  Clarice Tardio 
Editora: Oxente
Ano de publicação: 2026
Compre através desse link

TEAr, Múltiplas Formas de Existir representa a maior coletânea autobiográfica de pessoas no espectro do autismo diagnosticadas tardiamente, uma obra inédita, resultado do projeto Minha História, Nosso Espectro. Ela configura um espaço de fala, onde são abordados temas relevantes, como questões de ancestralidade, experiências de vida, capacitismo, invalidação diagnóstica, relacionamentos, maternidade e interseccionalidade dentro do espectro, envolvendo também questões raciais e de sexualidade. O livro é direcionado às famílias neurodivergentes, para que se sintam acolhidas mediante o pertencimento e a representatividade; à sociedade, com o propósito de escancarar os desafios invalidados como meio de conscientização, e a quem escreve, representando um importante elo de comunicação, mostrando trajetórias valiosas e identitárias ao refletir a amplitude do espectro. Além do autismo, são abordados temas como dislexia, discalculia e altas habilidades/superdotação, comumente associados. Há um substancial subdiagnóstico dos transtornos do neurodesenvolvimento e as mobilizações coletivas são imprescindíveis para o processo de validação do abismo existente entre a máscara da funcionalidade exigida das pessoas neurodivergentes e os prejuízos ocultos, igualmente devastadores e excludentes.

 

Fala galera do Porão Literário, tudo certo? Hoje minha resenha é do livro TEAr: Múltiplas Formas de Existir – Narrativas Autobiográficas, organizado pela neurologista Clarice Tardio e publicado pela Editora Oxente com um conjunto de mais de vinte autoras e autores. 



O diagnóstico de autismo na vida adulta costuma vir acompanhado por uma mistura de sentimentos. Para algumas pessoas, ele representa o fim de anos de dúvidas; para outras, traz o peso de perceber quanto tempo foi vivido sem compreender o próprio funcionamento. Em TEAr: Múltiplas Formas de Existir, vinte e seis pessoas compartilham justamente esse momento de descoberta. Cada capítulo apresenta uma trajetória diferente, escrita em primeira pessoa, revelando experiências marcadas por diagnósticos tardios, dificuldades de adaptação, preconceitos, relações familiares, mercado de trabalho, maternidade, saúde mental e, principalmente, pelo processo de finalmente compreender quem sempre foram.


Ao longo das páginas conhecemos artistas, psicólogos, professores, jornalistas, mães, pais e profissionais das mais diversas áreas. Apesar de viverem realidades completamente diferentes, todos acabam se encontrando em um mesmo ponto: a sensação de terem passado boa parte da vida tentando se encaixar em um mundo que nunca foi pensado para eles. Mais do que uma coletânea de relatos autobiográficos, TEAr se transforma em um espaço de acolhimento, identificação e representatividade para pessoas neurodivergentes e para qualquer leitor interessado em compreender melhor o autismo para além dos estereótipos.



O primeiro aspecto que me chamou atenção foi justamente a proposta do livro. Em vez de apresentar uma visão exclusivamente clínica sobre o Transtorno do Espectro Autista, a obra entrega algo muito mais poderoso: pessoas contando suas próprias histórias. Essa escolha nos aproxima da realidade dos autores e mostra que não existe uma única forma de vivenciar o autismo!


Essa diversidade acaba sendo uma das maiores qualidades do livro. Alguns relatos possuem um tom mais emocional, outros são mais reflexivos e existem também aqueles que utilizam bastante humor para abordar situações difíceis. Mesmo assim, todos compartilham um sentimento parecido de redescoberta; em vários momentos é impossível não perceber o alívio que muitos autores sentiram ao finalmente compreender experiências que carregavam desde a infância e que, durante anos, foram interpretadas apenas como timidez, preguiça, falta de esforço ou dificuldade de socialização.


Outro ponto muito positivo é que o livro desconstrói diversas ideias equivocadas sobre o autismo. Os relatos mostram mulheres diagnosticadas apenas na vida adulta, profissionais bem-sucedidos, artistas, professores, pais e mães que passaram décadas mascarando suas dificuldades para atender às expectativas sociais. Essa pluralidade reforça que o espectro é muito mais amplo do que a imagem frequentemente difundida pelo senso comum.



Entre todos os textos, alguns acabaram me marcando mais justamente pela honestidade com que expõem momentos de vulnerabilidade. Há relatos sobre crises sensoriais, esgotamento profissional, dificuldades de relacionamento, depressão, ansiedade e o desgaste provocado pelo chamado masking, quando a pessoa passa anos tentando esconder características do próprio funcionamento para parecer "normal". São passagens difíceis de ler em alguns momentos, mas justamente por isso carregam tanto impacto.


Também gostei muito da maneira como os autores demonstram que o diagnóstico não aparece como um ponto final, mas como o início de um processo de autoconhecimento. Em vários capítulos, a confirmação do autismo não elimina as dificuldades, mas permite que elas finalmente façam sentido. Isso muda completamente a forma como cada um passa a enxergar sua própria história e suas relações com o mundo. Há um sentimento constante de reconstrução que atravessa praticamente toda a coletânea.


Outro detalhe que merece destaque é o cuidado editorial da obra. A organização dos capítulos faz com que a leitura permaneça dinâmica, mesmo em um livro extenso. Além disso, a escolha da fonte Lexend, desenvolvida para facilitar a leitura de pessoas com dislexia e TDAH, demonstra uma preocupação real com acessibilidade, algo que conversa diretamente com a proposta do projeto.



TEAr: Múltiplas Formas de Existir é uma coletânea sobre identidade, pertencimento e a importância de sermos capazes de compreender nossa própria história. Clarice Tardio reúne relatos que informam, emocionam e, principalmente, humanizam uma experiência que durante muito tempo foi reduzida a diagnósticos e definições técnicas. No fim da leitura, fica evidente que conhecer essas histórias é também ampliar nossa forma de enxergar as pessoas e entender que existem inúmeras maneiras legítimas de existir.






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Leonardo Santos



Olá leitories! Meu nome é Leonardo Santos, tenho 28 anos, sou de São Paulo mas atualmente estou em Guarulhos cursando Letras! Minha paixão pela leitura começou desde muito cedo, e é um prazer compartilhar minhas leituras e experiência com vocês!

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