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RESENHA: O CONTO DA AIA

14 de setembro de 2018


O Conto da Aia
Autora:
Margaret Atwood
Editora:
 Rocco
Páginas
: 368
Resenha escrita por:
 Leonardo Santos

A história de 'O conto da aia' passa-se num futuro muito próximo e tem como cenário uma república onde não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes - tudo fora queimado. As universidades foram extintas. Também já não há advogados, porque ninguém tem direito a defesa. Os cidadãos considerados criminosos são fuzilados e pendurados mortos no muro, em praça pública, para servir de exemplo enquanto seus corpos apodrecem à vista de todos. Nesse Estado teocrático e totalitário, as mulheres são as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes. O nome dessa república é Gilead, mas já foi Estados Unidos da América. As mulheres de Gilead não têm direitos. Elas são divididas em categorias, cada qual com uma função muito específica no Estado - há as esposas, as marthas, as salvadoras etc. À pobre Offred coube a categoria de aia, o que significa pertencer ao governo e existir unicamente para procriar. Offred tem 33 anos. Antes, quando seu país ainda se chamava Estados Unidos, ela era casada e tinha uma filha. Mas o novo regime declarou adúlteros todos os segundos casamentos, assim como as uniões realizadas fora da religião oficial do Estado.

nolite te bastardes carborundorum

A escrita pode ter sido publicada em 1985. Entretanto, O Conto da Aia nunca foi tão atual. Sucesso de crítica e vencedores de inúmeros prêmios, a obra de Margaret Atwood foi reconhecida pelo pública geral após o estrondoso sucesso da série homônima The Handsmaid's Tale, produzida pelo serviço de streaming Hulu. Agora, por que um livro de mais de vinte anos está fazendo tanto sucesso agora, em 2018? 

Os motivos são inúmeros, e tentarei trazer os principais deles aqui nessa resenha. Tentarei ao máximo desvincilhar as comparações com a série em si e tratar apenas do livro, mas já deixo avisado que ambas mantém um grau de excelência durante seu desenvolvimento e a adaptação é fiel em praticamente todo o conteúdo do livro. Enfim, vamos lá. 

Offred é uma aia cuja função é procriar. Nessa sociedade de Gillead, que segue um regime espelhado no velho testamento bíblico, as mulheres se tornaram inférteis devido a radioatividade do ar e toxinas liberadas durante as guerras, porém, agora existe uma suposta paz erguida pelo sistema. Offred foi abençoada, pois ainda tem a capacidade de gerar um filho, daí surge sua função de aia, pois como propriedade do governo vigente ela terá que ceder o seu ventre para famílias de alto poder.  As privações são muitas, Offred não pode sair por contra própria, não pode dirigir a palavra ao comandante ou sua mulher, Serena, sem autorização ou motivo urgente. Entretanto, Offred não é seu nome verdadeiro e ela tem extrema consciência disso, já que mesmo sendo contra a lei, June se recorda de como era sua vida antes do regime, lembra-se de seu marido (que não sabe se está vivo ou não) e de sua filha (que não vê faz anos). 

Nisso, o conflito. Offred/June se divide entre a pessoa que era e a pessoa que é, a mulher livre e a aia. Sempre com o máximo de cautela pois sabe que qualquer passo em falso, qualquer olhar cruzado ou palavra mal dita pode levá-la às colônias, lugar onde as conhecida por Não-Mulheres (mulheres que não podem gerar filhos ou então pecadoras que descumpram as vontades d'Ele) trabalham em uma região extremamente radioativa sem proteção alguma. Sabe que não conseguir gerar um filho com o comandante da família em que serve poderá ser exilada ou executada. 

Dado a premissa inicial, partimos pro mundo distópico de Atwood, que tece de forma incrivelmente crua uma sociedade extremamente teocrática. Já conhecia bastante do enredo do livro devido à série e mesmo assim fiquei chocado e incomodado com o teor do livro devido a sua profundidade. Em vários momentos podemos sentir que aqueles personagens ou ambientes não são tão irreais assim, pelo contrário, são reais até demais devido aos momentos onde Offred se lembra de quando era "livre", tais flashes entram em contraste com o momento atual da narrativa e reforça ainda mais o quanto a situação é absurda. Mas ainda assim, a autora vai tecendo uma estrada para Gillead, desde o femínicidio que vemos no jornal até o regime final. 
Nada muda instantaneamente: numa banheira que se aquece gradualmente você seria fervida até a morte antes de se dar conta. Havia matérias nos jornais, é claro. Corpos encontrados em valas ou na floresta, mortos a cacetadas ou mutilados, que haviam sido submetidos a degradações, como costumavam dizer, mas essas matérias eram a respeito de outras mulheres, e os homens que faziam aquele tipo de coisas eram outros homens. Nenhum deles eram os homens que conhecíamos. As matérias de jornais eram como sonhos para nós, sonhos ruins sonhados por outros. Que horror, dizíamos, e eram, mas eram horrores sem ser críveis. 
E justamente por Offred ser parte da mudança radical que esse contraste é tão alarmante. As situações e os cuidados vivenciados pela personagem parecem ficcionais devido a distância com a realidade, entretanto uma parte da sua consciência fica alerta, pois denúncia que aquela situação não é tão absurda quanto parece. Afinal, crimes de ódio contra mulheres são recorrentes no mundo, e nisso Margaret vai ainda mais longe, colocando o conceito de pecadores todos aqueles que não seguirem o conjunto de normas instaurados pelo velho testamento. Ou seja, homossexuais, adúlteras, feministas... todos terão o mesmo destino, o que em Gillead se dá por execução por fuzilamento, por enforcamento ou então a colônia. 
Um dos fatores mais graves desse regime pode ser a influência psicológica que aquela percepção causa na pessoa, em um ambiente daqueles, o mais fácil seria aceitar as condições propostas e "viver" seguindo as regras impostas, mas imagina só você se desfazer de todos os seus valores morais e éticos para realmente aceitar e viver em uma sociedade que ignora qualquer direito civil ou humanitário? Onde você não tem nenhum controle do seu próprio corpo? 
Eu costumava pensar em meu corpo como um instrumento de prazer, ou um meio de transporte, ou um implemento para a realização da minha vontade. Eu podia usá-lo para correr, para apertar botões, deste ou daquele tipo, fazer coisas acontecerem. Havia limites, mas meu corpo era, apesar disso, flexível, único, sólido, parte de mim. 
Agora a carne se arruma de maneira diferente, sou uma nuvem, congelada ao redor de um objeto central, com o formato de uma pera, que é duro e mais real do que eu e que incandesce vermelho dentro de seu invólucro translúcido. Dentro dele está um espaço, imenso como o céu à noite e curvo como ele, embora negro-avermelhado em vez de negro. Pontos infinitesimais de luz incham, chispam, explodem e murcham dentro dele, incontáveis como estrelas. Todo mês há uma lua, gigantesca, redonda, pesada, um augúrio. Ela transita, se detém, segue em frente e passa, desaparece de vista, e eu vejo o desespero vindo em minha direção como uma grande fome, uma escassez absoluta. E sentir aquele vazio, vezes sem fim, e outra vez. Escuto meu coração onda após onda, salgado e vermelho, batendo e batendo sem parar, marcando o tempo.
Porém, Offred resiste, e é aí que mora grande parte da genialidade do livro em construir uma personagem forte e incrivelmente complexa. Parte dela acata as normas propostas unicamente pela sobrevivência, enquanto a outra se rebela completamente contra o todos aqueles que compõem, afinal, "Não deixe que os bastardos esmaguem você" (quem leu o livro pegará a referência).

O Conto de Aia  trouxe alguns dos sentimentos que o livro 1984, de George Orwell, me trouxe. Aquela angústia gigante por notar críticas sociais incríveis em um contexto "exagerado" que trás uma reflexão sobre a forma de como a sociedade caminha (mesmo que seja por passos lentos) para aquele fim. Um ponto que liga as duas obras é em como a propaganda funciona, em ambas existe um forte apelo visual e sensorial (aqui funciona através dos telejornais assistidos por Serena ou então os vídeos transmitidos por Tia Lydia) que reforçam o quanto aquele mundo em que Offred vive é melhor do que o anterior.
Atualmente, questões como essa estão sendo tratadas em todos os lugares, por isso é incrível o quanto Margaret Atwood conseguiu transmitir sua crítica e como a obra permanece atual duas décadas depois. Enfim, aqui finalizo a resenha com um trecho em que a protagonista passa uma mensagem a você, o/a leitor(a). 
Lamento que haja tanto sofrimento nesta história. Lamento que esteja em fragmentos, como um corpo apanhado num fogo cruzado ou desfeito em pedaços à força. Mas não há nada que eu possa fazer para mudá-la. Mesmo assim me dói contá-la outra vez, mais uma vez. Uma vez não foi o bastante: uma vez não foi o bastante para mim na ocasião? Mas continuo com esta história triste e faminta e sórdida, esta história manca e mutilada, porque afinal quero que você a ouça, como ouvirei a sua também se algum dia tiver a chance, se encontrar você ou se você escapar, no futuro ou no Céu ou na prisão ou na clandestinidade, em algum outro lugar. O que elas têm em comum é que não estão aqui. Ao contar a você qualquer coisa que seja, pelo menos estou acreditando em você, acredito que esteja presente, ao acreditar faço com que você exista. Pelo fato de estar lhe contando esta história determino a sua existência. Conto, portanto você existe. 

28 comentários:

  1. Adorei essa história, a ideia é muito interessante, com certeza preciso muito ler-la.

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  2. Mesmo passado tanto tempo do lançamento do livro e o mesmo se passando em uma realidade fictícia, vemos que o tema não está tão distante de nossa realidade atual (censura, preconceito, machismo).

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  3. oi!
    Que interessante a historia, o livro parece ser muito bom. Já coloquei na lista de leitura...

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  4. Acredito que foi um dos melhores livros que você tenha lido, o enredo é maravilhoso, a ideia da história é genial, com certeza não deixa de ser atual e nos alarmar para possíveis golpes que a democracia venha sofrer resultado na opressão a todos, principalmente aos vistos com olhos de preconceito e desprezo. Todos deveriam ler, tirarem um bom aprendizado e exercerem constantes reflexões sobre o que queremos para o nosso futuro. Temos voz ativa. Jamais devemos ignorar isso.
    Abraços! 😊

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    1. Concordo plenamente, livros com um conteúdo tão realista e impactante como esse deveria ser de leitura obrigatória a todos. Entender como a ignorância e o preconceito agem na sociedade é fundamental para erradicar de vez.

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  5. Toda vez que entro nesse blog, minha wishlist de livros aumenta significativamente! Só dicas boas 😊

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    1. Que ótimo! Fico muito feliz com isso, Nadja! Obrigado pela visita.

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  6. Gosto muito desses livros que por mais que tenha uma história que talvez não aconteça, ou quem sabe aconteça em algum tempo, nos leva a enxergar o que passamos hoje, abrir os olhos para certas coisas ainda mais quando envolve política. Muito bom.

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    1. Também amo livros com essa pegada, justamente pela advertência que o autor ou autora quer passar.

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  7. Olá, tudo bem?

    Eu estou louca para ler essa obra, pois os últimos comentários que li a respeito me deixaram simplesmente em polvorosa. Creio que irei amar, principalmente pelas críticas embutidas que se tornam tão atuais, mesmo sendo um livro escrito a muito tempo atrás. Seu post me deixou mais louca para ler, pois essa angústia que você citou me deixa animada. Ótima resenha!

    Beijos!

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    1. Olá Alice, tudo bem sim e contigo?

      Fico muito feliz que tenha apreciado a resenha, eu acredito que você vai adorar o livro, por mais que o conteúdo seja bem perturbador, serve como um aviso.

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  8. Olá!
    Não sabia que tinha um livro O Conto de Aia , vi a propaganda da serie. Achei muito boa sua resenha, me deu bonvontde ler o livro.
    Abraços.

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    1. Olá Cíntia! Sim, o livro e a série são incríveis, tente ler para depois assistir que você vai entender do que eu estou falando

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  9. Caramba, é impossível não fazer uma relação com o quadro atual da sociedade. Eu não conhecia esse livro, e tampouco sabia que a série era baseada nele. Agora sim, sento vontade de ler um e ver a outra.
    Muito boa a tua resenha! Adorei

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    1. Exatamente, Malu. Isso é muito triste porém é um fato
      Obrigado pela visita. <3

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  10. Acho que o Conto da Aia é um dos clássicos exemplos de quando a obra literária é ainda melhor e mais profunda que a produção de TV. A série The Handsmade tale é inspirada nesse livro né, e eu já amo a série, agora preciso ler o livro haha

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    1. Sim, sim. Ambas tem um mérito gigante, mas o livro é mais impressionante ainda dado o ano em que foi escrito.

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  11. Confesso que comecei a ler a resenha um pouco sem entusiasmo, mas quando vc falou em série já me empolguei rs Eu juro que não conhecia esse livro mas fiquei animada para (e claro assistir) E realmente, apesar de tudo, é um livro super atual pelo que vc conta e quando eu ler já ficarei esperta para essa pegada.

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    1. Sim, sim. A série vale muito a pena, viu?
      Obrigado pela visita.

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  12. Adorei a resenha, eu estou assistindo a serie desse livro.

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  13. Oi
    Ótima resenha gostei muito da história do livro super interessante uma história que prender Você com certeza,vou adorar ler esse livro obrigado pela indicação.

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  14. Nossa, que sinopse e resenha marcante e que nos instiga a ler! Uma leitura bem atual por assim dizer.Imagine só este contexto nos dias atuais? Será que não tem vestígios disso até hoje?

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    1. Pois é, os vestígios estão aí pra todos verem, infelizmente.
      Obrigado pela visita.

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Olá leitores e leitoras! Meu nome é Leonardo Santos, tenho 24 anos, sou de São Paulo mas atualmente estou em Minas Gerais cursando Letras! Minha paixão pela leitura começou desde muito cedo, e é um prazer compartilhar minhas leituras e experiência com vocês!

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