Olá pessoal do Porão Literário! Hoje vou compartilhar com vocês uma entrevista feita com Otávia Silla, autora de A Casa de Nossos Nomes.
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1. A Casa de Nossos Nomes trabalha muito a ideia de herança: de sangue, de sobrenome e de violência. Em que momento você percebeu que essa história precisava falar menos sobre escolhas individuais e mais sobre aquilo que é imposto aos personagens desde o nascimento?
Foi uma progressão. Eu lembro de começar pela introdução, por aquela relação bonita entre mãe e filha que, mesmo atravessada por medo e dureza, ainda existia na forma mais essencial: elas estavam ali, uma pela outra. Conforme eu ia encaixando as peças, ficou claro que Marcela era uma mulher que sonhava com liberdade, mas vinha de uma vida que nunca ofereceu escolhas. Ela fugiu até onde deu. E o pavor de perder a filha foi o que a fez voltar.
Nesse primeiro momento da narrativa eu entendi uma coisa com nitidez: eu não estava contando só uma história de amor, nem só um relacionamento proibido. Eu estava falando daquilo que a gente carrega no sobrenome, na carne, na história da família, muito antes de saber quem é. De como certas violências e certos papéis chegam antes do “eu”.
E a Marianna é um paradoxo dentro disso: entre todos, ela é a única que não carrega o peso simbólico de um nome, mas é justamente quem carrega a opressão dos dois. Talvez por isso me fascinem tanto as tragédias gregas: o herói trágico nunca consegue fugir do destino, porque o destino não é um evento, é uma estrutura. Para quem carrega o peso dos “nomes”, eu sinto que é assim também. Como diria a Marcela: a gente tenta girar a roda… mas ela sempre nos toma de volta.
2. Capitolina é uma cidade que parece respirar junto com a narrativa, quase como um personagem. Como foi o processo de construção desse espaço e quais referências foram fundamentais para chegar a essa atmosfera tão opressiva e simbólica?
Eu sempre morei em cidades de médio a grande porte, até me casar e vir morar num microcosmo de vinte mil habitantes. E eu fui ficando agoniada com alguns aspectos muito específicos desse tipo de lugar. Às vezes bastava sentar numa roda de amigos pra descobrir segredos pesados, quase sempre tratados como domínio público, de pessoas que eu mal conhecia. De repente, as pessoas sabiam meu nome, sabiam onde eu morava, sabiam detalhes demais. E isso me atravessava de um jeito desconfortável.
Eu sou muito ensimesmada, então essa sensação de “cidade que te lê antes de você falar” foi me oprimindo. Sei que, pra muita gente, é o paraíso, tenho amigas que não se imaginam em outro lugar. Eu, ao contrário, cheguei ao ponto de evitar caminhar em determinados horários só pra não ter que cumprimentar semi desconhecidos (risos). Sim, isso tem a ver comigo. Sim, provavelmente tem um capítulo de terapia aí. Mas foi justamente essa opressão que virou ponto de partida.
Eu queria criar uma cidade onde nenhum segredo fica guardado por muito tempo, porque em cidade pequena o segredo quase sempre é só uma informação esperando o próximo café. E aí entra a outra camada: Pedrinhas Paulista foi um gatilho estético e simbólico muito forte. Eu já queria contar uma história de máfia, e ali existe uma beleza que é quase cenográfica, marcada por uma herança italiana muito viva. É uma cidade que carrega memória na arquitetura, nos sobrenomes, nas relações, nos silêncios.
Foi juntar a opressão da cidade pequena com a beleza de um lugar que parece uma ode à Itália. Assim nasceu Capitolina: um espaço que respira junto com a narrativa, que observa, enquadra, nomeia e cobra. Uma cidade onde o ar é bonito, mas nunca é leve.
3. Acompanhar a Marianna desde a infância até a vida adulta torna a leitura especialmente dura. Quais foram os maiores desafios em escrever esse amadurecimento precoce sem suavizar os traumas e sem romantizar a dor?
O maior desafio foi encontrar o equilíbrio entre o que precisa ser mostrado e o que não pode virar espetáculo. Eu tentei respeitar as fases da Marianna: mesmo cercada por violência e abandono, existem momentos ternos entre ela e Dante que não têm nada a ver com a relação posterior. Têm a ver com duas crianças sozinhas no mundo, tentando dar o melhor possível da forma mais estranha e imperfeita que conseguem.
Dante assume um papel de protetor quase como se já tivesse nascido pronto para isso. E a Mari confia porque, pela primeira vez, ela recebe o mínimo: presença, atenção, um tipo de cuidado que não vem com cobrança imediata. Essa base é muito importante, porque mostra que nem tudo nela foi só ferida. Existiu vínculo. Existiu abrigo, ainda que instável.
É difícil falar da Marianna sem me emocionar, porque a vida apresenta muitas meninas como ela: forjadas na dor, no trauma, amadurecendo cedo demais. O que eu quis fazer foi não suavizar o que aconteceu, mas também não reduzir a personagem à dor. Eu quis dar a ela a virada. A possibilidade de se enxergar como sujeito e não só como consequência, mesmo que essa virada venha de um jeito torpe, errado, humano e cheio de sombras.
4. Dante ocupa um lugar ambíguo na narrativa, dividido entre o papel de herdeiro da violência e de alguém moldado por um sistema que ele não criou. Como foi construir esse personagem sem transformá-lo em herói ou vilão, mantendo essa zona cinzenta que atravessa toda a história?
O Dante me tirava o sono. Personagens como ele atravessam a gente e arrancam um pedaço da alma. Porque ele é, ao mesmo tempo, muito digno de amor e profundamente perigoso. Ele tem um coração imenso, e eu consigo enxergar com clareza o tipo de homem que ele poderia ter sido se não tivesse sido empurrado para um universo que não oferece escolha, só sobrevivência.
O que me interessava era justamente isso: ele não é herói e não é vilão. Ele é um produto de um sistema que não criou, mas que ele aprende a operar muito bem. E mesmo dentro desse mundo, ele mantém códigos e valores. Não porque seja “bonzinho”, e sim porque é a forma que ele encontra de não se perder completamente.
Outra coisa importante pra mim foi não cair no estereótipo do mafioso de fantasia. Dante não vigia a Marianna por prazer de domínio, por fetiche de posse, por aquela cartilha de “mocinho do dark romance”. Ele mantém vigilância porque já perdeu tudo uma vez, e vive com o medo crônico de que tudo desande de novo. O controle dele nasce do pânico, não de vaidade. Isso não torna as escolhas dele menos problemáticas, mas explica o mecanismo.
E ele quebra. Ele chora, entra em colapso, se esconde, falha, se contradiz. Ele não tem a blindagem emocional do arquétipo do mafioso intocável. Acho que é por isso que o leitor consegue gostar dele e, mais do que gostar, entender: não porque ele esteja certo, mas porque ele é humano demais dentro de um mundo que exige desumanidade o tempo todo.
5. Sabendo que A Casa de Nossos Nomes terá continuação, como foi decidir o ponto exato de encerramento desse primeiro livro e o que você sentiu que precisava ficar em aberto para que essa história pudesse seguir se expandindo?
Na verdade, o que você leu nem era pra ser “o livro”. Era pra ser só a introdução do universo onde eu queria chegar (risos). Só que, enquanto eu escrevia, fui entendendo que eu precisava construir as fundações com calma: explicar relações, traumas, pactos e a lógica de um lugar onde ninguém cresce ileso.
Eu sempre soube qual seria o desfecho desse primeiro volume, porque ele funciona como um portal: ele não resolve tudo, mas define quem essas pessoas são quando não dá mais pra fingir inocência.
O segundo livro não é exatamente o ponto de partida que eu imaginava lá no começo. Ele é o trecho em que eu amarro as pontas e acompanho as consequências: a passagem do tempo, as perdas, as escolhas e, principalmente, o que Marianna e Dante se tornam quando o destino começa a cobrar juros.
E o terceiro é o retorno. Não como “final feliz”, mas como coroação. Porque às vezes a volta não é sobre voltar pra casa. É sobre voltar como alguém que finalmente entende o próprio nome.
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