23 de março de 2026

RESENHA: BARRACUDA



Organizadores: Henrique Kuczera
Editora: Minimalismos
Ano de publicação: 2026
Compre através desse link

Mas lá estava eu, parado em frente a um bar de dois andares, com a janela do segundo andar quebrada no canto direito. Eu estava um caco, deprê que só. Perdido, fodido e deliberando sobre o que eu podia falar pra ela. Calma lá, ainda tenho alguns minutos, mesmo que atrasado, pois a mistura desconhecida de substâncias que eu experienciei hoje mais cedo — com uma finalização de pó e conhaque — começou a me trazer o azedo e gélido suor proveniente de sua passagem, junto com um terremoto interior que descia massacrando meu sistema nervoso central.

 

Fala galera do Porão Literário, tudo certo? Hoje minha resenha é do livro Barracuda, escrito por Henrique Kuczera. O livro foi publicado pela editora Minimalismos e a resenha foi escrita por Leonardo Santos. 


A história acompanha Hugo, um artista que vive atravessado por culpa, vício e uma relação constante com a autodestruição. Logo no início, vemos ele reencontrando Hebe em uma situação que já diz muito sobre quem ele se tornou: alguém incapaz de se relacionar sem carregar junto um peso emocional enorme. 

Esse reencontro é muito tudo aquilo que ficou mal resolvido entre os dois e que continua influenciando suas escolhas. Ao mesmo tempo, o livro não se limita a Hugo. Hebe e Josué dividem o espaço narrativo de forma muito presente, e isso faz com que a história ganhe mais profundidade.

Hebe é uma personagem que carrega suas próprias dores. A vida dela é marcada por relações difíceis, principalmente dentro de casa, e por uma sensação constante de solidão. Mesmo assim, ela não é construída apenas como alguém que sofre por causa de Hugo. Existe um processo próprio acontecendo ali, uma tentativa de se entender e de não depender sempre dos outros para se sustentar emocionalmente. 

Já Josué surge como um personagem cheio de conflitos internos. Ex-padre, ele vive dividido entre o desejo e a culpa, entre aquilo que sente e aquilo que aprendeu a reprimir. A aproximação dele com Hebe não resolve esses conflitos, pelo contrário, acaba deixando tudo ainda mais evidente.

O livro se constrói a partir dessas três perspectivas que se cruzam o tempo inteiro. Hugo é o centro, mas não monopoliza a narrativa. Cada um dos personagens traz um tipo diferente de conflito, e é justamente isso que sustenta a história. Enquanto Hugo lida com a própria ruína e com as consequências das escolhas que fez, Hebe tenta encontrar algum tipo de estabilidade em meio ao caos que sempre foi sua vida. Josué, por sua vez, representa uma outra forma de crise, mais silenciosa, mas não menos intensa.

O que mais me chamou atenção em Barracuda foi como os conflitos são sempre muito internos. As questões externas existem, claro, mas o que move a narrativa é o que está acontecendo dentro de cada personagem. A culpa, o desejo, a dependência emocional e a dificuldade de estabelecer relações saudáveis aparecem o tempo inteiro. Isso faz com que o livro tenha um peso maior, porque nada ali é simples de resolver.

Outro ponto que funciona muito bem é a forma como a narrativa alterna entre esses três personagens. Isso amplia a leitura, porque a gente passa a entender melhor as motivações de cada um. O que poderia parecer apenas uma atitude impulsiva de Hugo, por exemplo, ganha outra camada quando vemos o impacto disso em Hebe ou como isso se relaciona com a forma como Josué enxerga o mundo. Essa construção deixa o livro mais completo e evita que a história fique limitada a um único ponto de vista.

Também gostei bastante da forma como o autor trabalha a linguagem. O texto acompanha o estado emocional dos personagens, o que faz com que a leitura seja direta, às vezes desconfortável, mas sempre coerente com o que está sendo contado. Não é um livro que tenta suavizar suas próprias escolhas, e isso funciona muito a favor da proposta.

No fim, Barracuda é um livro que se sustenta pelos personagens. Hugo conduz a narrativa com uma presença forte, mas Hebe e Josué garantem que a história não fique restrita a um único olhar. Cada um deles traz um tipo diferente de conflito, e juntos constroem um retrato bem consistente sobre relações desgastadas, culpa e a dificuldade de seguir em frente depois de certas escolhas.

Foi uma leitura que me prendeu muito mais pelo desenvolvimento desses personagens do que por qualquer outro elemento. E, pra mim, isso já é o suficiente pra indicar o livro.




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Leonardo Santos



Olá leitories! Meu nome é Leonardo Santos, tenho 28 anos, sou de São Paulo mas atualmente estou em Guarulhos cursando Letras! Minha paixão pela leitura começou desde muito cedo, e é um prazer compartilhar minhas leituras e experiência com vocês!

Equipe do Porão

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