Organizadores: Francisco Gabriel Rêgo
Editora: Relógio de Papel Ano de publicação: 2026
Compre através desse link
Em seu segundo livro, Francisco Gabriel Rêgo constrói uma metáfora histórica a partir do meteorito Bendegó e de seu transporte pelo sertão da Bahia, no final do século XIX. À medida que acompanhamos o deslocamento desse objeto sideral pela vasta paisagem do sertão baiano durante a primeira expedição científica brasileira, somos apresentados, por meio de uma linguagem primorosa e imaginativa, às transformações das estruturas profundas da sociedade brasileira, resultantes do fim do período imperial, e às repercussões imediatas e futuras do processo de construção de um povo. Trata-se de um livro que aborda, ao mesmo tempo, a memória, as relações de poder, a relação entre geografia e ser humano, e o funcionamento social e político de uma nação em construção. Mas também é uma exploração linguística intensa e elegantemente elaborada sobre os problemas da formação dessa subjetividade nacional.
Fala galera do Porão Literário, tudo certo? Hoje minha resenha é do livro Bendegó, escrito por Francisco Gabriel Rêgo. O livro foi publicado pela editora Relógios de Papel e a resenha foi escrita por Leonardo Santos.
A história se passa no final do século XIX e acompanha a expedição responsável por transportar o meteorito Bendegó pelo sertão da Bahia até a capital do Império. A missão é liderada pelo comendador José Carlos de Carvalho, que reúne uma equipe formada por engenheiros, um cartógrafo e até um fotógrafo oficial, todos encarregados de documentar e garantir o sucesso dessa travessia que mistura ciência, política e prestígio nacional.
Conforme o grupo avança pelo sertão, o que parecia apenas uma empreitada técnica começa a ganhar outras camadas. O deslocamento da pedra passa a expor tensões sociais, relações de poder e o próprio momento histórico do Brasil, que vive o fim do período imperial e se aproxima da abolição da escravidão. Ao mesmo tempo, o Bendegó deixa de ser só um objeto científico e passa a ocupar um lugar mais ambíguo dentro da narrativa, quase como uma presença que interfere na percepção dos personagens e na forma como eles se relacionam com aquele espaço.
O que mais me chamou atenção em Bendegó foi justamente a forma como o autor escolhe contar essa história. Não é um livro interessado em conduzir a leitura de maneira tradicional. Os diálogos não aparecem separados, eles se misturam à narração e às descrições, criando um fluxo contínuo que no começo pode causar estranhamento, mas que rapidamente se torna um dos maiores acertos do livro. Essa escolha faz com que tudo pareça conectado, como se personagens, ambiente e pensamento ocupassem o mesmo plano o tempo inteiro.
A construção da linguagem também merece destaque. O texto é muito bem trabalhado, com descrições detalhadas que dão peso ao sertão e fazem daquele espaço quase um personagem. Existe uma tentativa constante de dar conta daquilo que não pode ser explicado com facilidade, e isso aparece tanto na forma como o ambiente é descrito quanto na própria presença do meteorito. O Bendegó carrega uma dimensão que escapa da lógica científica, o que traz uma camada mais interessante para a narrativa sem precisar recorrer a explicações diretas.
Os personagens funcionam bem dentro dessa proposta. O comendador, os engenheiros e o fotógrafo representam diferentes formas de olhar para aquela missão. Cada um tenta entender o que está acontecendo a partir do seu próprio campo, seja pela ciência, pela técnica ou pela imagem. Essa diferença de perspectivas enriquece o texto, principalmente porque nenhuma delas parece suficiente para explicar completamente o que está em jogo.
Outro ponto que o livro trabalha bem é o contexto histórico. A história se passa em um momento muito específico do Brasil, e isso aparece de forma sutil, mas constante. As relações de poder, a presença dos trabalhadores e a forma como certos acontecimentos são tratados dizem muito sobre a estrutura social da época. Não é um livro que explica esse contexto de forma direta, mas ele está ali o tempo inteiro, atravessando a narrativa.
No geral, Bendegó é uma leitura que chama atenção tanto pela forma quanto pelo conteúdo. Não é um livro que vai agradar todo mundo, principalmente por conta da linguagem mais densa e do ritmo menos convencional, mas é justamente isso que faz com que ele se destaque. É uma obra que exige mais do leitor, mas que entrega uma experiência bem diferente do que a gente costuma encontrar.
Se você gosta de narrativas que fogem do padrão e que trabalham bem a relação entre linguagem, história e construção de sentido, vale muito a leitura.


.jpeg)




















.png)
.png)

